Lugar de escuta. Graziela Kunsch e Daniel Guimarães, 2018

Dispositivo artístico e clínico para que pessoas e grupos específicos possam realizar exercícios de “escuta mútua”, democratizando a responsabilidade ainda hoje atribuída a especialistas das áreas “psi”. Para que diferentes lugares de fala sejam respeitados, é fundamental que exista escuta. É na escuta que a fala é validada, para a própria pessoa enunciadora. Uma comunidade pode se transformar ao, através de um processo de fala e de escuta, nomear e elaborar elementos até então silenciados sobre sua história, sua forma de existir e se relacionar. Nesse processo, que é ao mesmo tempo coletivo e individual, novos conteúdos sobre a própria comunidade podem emergir – ou ser imaginados.

(Parte de projeto realizado na exposição Arte democracia utopia – Quem não luta tá morto, com curadoria de Moacir dos Anjos, no MAR – Museu de Arte do Rio)

Descrição completa de outra ação do projeto, ainda em andamento:

EXPERIMENTAÇÃO DE UMA CLÍNICA PÚBLICA NO RIO DE JANEIRO: CONVITE À CONSTRUÇÃO COLETIVA

Neste sábado, 15/9, abre no MAR – Museu de Arte do Rio uma exposição chamada “ARTE DEMOCRACIA UTOPIA – Quem não luta tá morto”, com curadoria de Moacir dos Anjos. A artista Graziela Kunsch e o psicanalista Daniel Guimarães, integrantes da Clínica Pública de Psicanálise, estão realizando um projeto nesse contexto. No espaço expositivo foi instalado um “lugar de escuta” e dispositivos para práticas de “escuta mútua”, que nada mais são que cadeiras em uma grande roda e cadeiras em dupla, para serem usadas por quem desejar, democratizando a responsabilidade ainda hoje atribuída a especialistas das áreas “psi”. Fora do espaço expositivo, na Escola do Olhar, que faz parte do museu, irá acontecer um grupo de trabalho em torno de experiências de clínica social históricas e atuais. Além de compartilhar experiências e aprendizados, as/os participantes terão a responsabilidade de definir, democraticamente, o uso de uma pequena verba, para ações ao longo dos meses de duração da exposição. As ações poderão acontecer no museu, no entorno do museu e/ou em um contexto específico do Rio de Janeiro, configurando, na prática, uma nova experiência de clínica pública na cidade, mesmo que temporária. Uma das questões a serem abordadas será o próprio nome da exposição, que desloca uma frase de movimentos de moradia paulistanos ao contexto carioca, onde há seis meses a vereadora Marielle Franco e Anderson Gomes foram brutalmente executados, como tentativa de silenciamento da luta desta mulher. Dito de outra maneira, se quem não luta está morto, quem luta também morre, morre lutando. Como podemos nos cuidar e transformar o luto em ainda mais luta? Muitos movimentos sociais evocam seus mortos como forma de presença, como forma de dizer que a luta continua, e que essas pessoas seguem vivas pela própria continuidade da luta… Assim, a frase-título da exposição, para nós, não se encerra em si mesma, podendo ser geradora de discussões que iremos travar. Objetivamente, o grupo de trabalho será formado por aproximadamente 21 pessoas, de diferentes gerações, entre convidadas/os, educadoras/es do museu e selecionadas/os através desta chamada. Entre as/os convidadas/os estarão desde integrantes da Clínica Social de Psicanálise, que existiu entre 1972-1991 no Rio de Janeiro, até pessoas de luta em contextos específicos da cidade, como o complexo da Maré e a Vila Autódromo. Para as vagas abertas, buscamos principalmente pessoas com atuação clínica interessadas em uma psicanálise popular, não elitista; estudantes das diferentes áreas psi; trabalhadoras/es da rede pública de saúde psíquica; e artistas socialmente engajadas/os ou ativistas residentes no Rio de Janeiro. As pessoas interessadas em participar devem ler este longo post até o final, para saber como proceder para participar da seleção!

Datas:
22 e 23/9, sábado e domingo

Horário nos dois dias:
10h30 café coletivo; 11h-13h conversa em grupo; 13h-14h intervalo para almoço; 14h-18h conversa em grupo

Descrição objetiva:
Grupo de trabalho em torno de experimentos de clínica social em espaços públicos, centros culturais, contextos específicos e/ou com grupos específicos. Além de compartilhar experiências e aprendizados, as/os participantes terão a responsabilidade de definir, democraticamente, o uso de uma pequena verba, para ações ao longo dos meses de duração da exposição. As ações poderão acontecer no museu, no entorno do museu e/ou em um contexto específico do Rio de Janeiro, configurando, na prática, uma nova experiência de clínica pública na cidade, mesmo que temporária.

Participantes convidadxs já confirmadxs, em ordem alfabética:
Anderson Caboi (Maré, Rede de Saúde das Favelas)
Anna Turriani (coletivo Margens Clínicas)
Audrei Santiago (acompanhante terapêutica)
Cosme Felippsen (Rolé dos favelados, Morro da Providência)
Daniel Guimarães (Clínica Pública de Psicanálise)
Fernanda Kutwak (Casa da Árvore)
Gabe Passareli (terapeuta ocupacional)
Gabriela Serfaty (NAPAVE – Núcleo de Apoio Psicossocial a Afetados pela Violência de Estado, Clínica do Testemunho e grupo artístico-clínico de escuta entre mulheres)
Gabriel Tupinambá (CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia)
Graziela Kunsch (Clínica Pública de Psicanálise)
Jennifer Bello (CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia)
João Batista Ferreira (Clínica Social de Psicanálise)
Julia Milman (Casa da Árvore)
Olivia Françozo (Equipe Clínico Política RJ, NAPAVE – Núcleo de Apoio Psicossocial a Afetados pela Violência de Estado e coletivo Margens Clínicas)
Pedro Mascarenhas (Psicodrama Público)
Sandra Maria (Museu das Remoções, Vila Autódromo)

Participantes selecionadxs via chamada aberta, em ordem alfabética:
André Morse (Psicanálise no Jacarezinho)
Bruna Pinna
Carolina Motta Cardoso Salles
Emilia Estrada
Gisele Bandeira
Jair Dias Augusto Júnior
Letícia Costa Barbosa
Marta Maria de Oliveira (Psicanálise no Jacarezinho)

Descrição das experiências representadas já confirmadas, em ordem alfabética:

Casa da Árvore
A Casa da Árvore é um dispositivo de atenção à infância e seus cuidadores em favelas do Rio de Janeiro. Fundada em 2001, como resposta às dificuldades no atendimento psicológico infantil na rede pública, a ONG busca disseminar uma cultura de valorização de cuidado com as crianças, tomando-as como sujeitos em formação que são, e auxiliando pais, familiares, educadores e equipes de saúde – agentes desses cuidados – na construção e manutenção de um ambiente favorável ao desenvolvimento infantil. Trata-se de uma experiência de atenção a crianças de até 12 anos e suas famílias, que promove um espaço de valorização do brincar e da palavra que ajude a criança na elaboração de conflitos psíquicos, sociais e familiares. O projeto busca sensibilizar a população sobre a importância da infância para a saúde individual e da sociedade futura, implantando nos dispositivos de políticas públicas a ética do cuidado à infância.

CEII – Círculo de Estudos da Ideia e da Ideologia
Grupo que realiza, entre outras práticas, o projeto Organizando a vida, um dispositivo experimental que visa articular psicanálise e economia, num serviço de consultoria de finanças domésticas com orientação analítica. O projeto se propõe subverter o dispositivo da consultoria financeira – ferramentas como orçamentos, planejamentos de consumo, etc – de modo a transformar a vida econômica dos sujeitos. O dispositivo assume a forma de um setting clínico tradicional, composto por analista e analisando, e desdobrado em sessões de duração e frequência variável, porém determinado por uma condição anterior à “regra fundamental” da livre associação analítica: o mapeamento da vida financeira. A aposta fundamental do projeto Organizando a vida é de que, para que a clínica psicanalítica possa realmente se tornar porosa ao sofrimento contemporâneo num país como o Brasil, é preciso uma transformação radical: um movimento definido menos pelo acesso à psicanálise pelos que sofrem e mais pela capacidade da própria psicanálise de “falar a língua” do sofrimento popular. Isto é, ao invés de subsidiar pública ou privadamente a clínica, para que o dinheiro deixe de ser uma questão impeditiva ao tratamento, trata-se antes de colocar em questão o sofrimento, cuja expressão é ela mesma o dinheiro.

Clínica Pública de Psicanálise, São Paulo
A Clínica Pública de Psicanálise nasceu em 2016, no canteiro aberto da Vila Itororó, em São Paulo, onde continua existindo. Realiza cerca de 350 sessões terapêuticas gratuitas por mês, indivi-duais e coletivas. Surgiu como uma proposição da artista Graziela Kunsch, então responsável pela formação de público do canteiro aberto, a partir de seu reencontro com ex-moradores da Vila e em diálogo com psicanalistas interessados em uma psicanálise popular, não elitista. A Clínica foi imaginada como uma política de reparação, como meio de não esquecimento da violência que se deu nesse contexto (a retirada forçada de moradoras/es para a construção de um centro cultural) e também como uma das muitas experimentações do canteiro aberto, que visam a alargar a noção de cultura e o que se espera de um centro cultural. O grupo da Clínica hoje é formado por Ana Carolina Santos, Breno Zúnica, Camila Bassi, Camila Kfouri,Dafne Melo, Daniel Guimarães, Daniel Modós, Fernando Pena, Frederico Tell Ventura, Graziela Kunsch, Isabel Drummond, Manuela Ferreira e Veridiana Dirienzo e tem como supervisores dos atendimentos Heidi Tabacof, Maria Silvia Bolguese, Marta Azzolini e Mauricio Porto. Com um processo permanente para entrada de novos membros, a Clínica vem se configurando também como um espaço de formação.

Clínica Social de Psicanálise, Rio de Janeiro
Fundada em 1972 por Hélio Pellegrino e Anne Kattrin Kemper, a Clínica Social de Psicanálise funcionou até 1991. Logo no início agregaram-se a ela 16 psicanalistas e 8 colaboradores, que formaram um banco de horas, para o qual cada um daria pelo menos duas horas por semana de seu tempo de trabalho para os atendimentos na clínica. Cerca de 700 pessoas se inscreveram para os atendimentos já no primeiro mês. Eram atendidos adultos, adolescentes, crianças, além de orientação para mães e pais. Para adultos e adolescentes era oferecido análise de grupo. Para as crianças oferecia-se grupos lúdicos, composto por 10 a 12 crianças assistidas por dois colaboradores, utilizando-se os métodos recreativo (animação coletiva), expressivo (montagens, desenhos, modelagens) e verbal (histórias ou ocorrências). Duas vezes por mês fazia-se uma revisão crítica coletiva do trabalho. Os 8 colaboradores não eram psicanalistas, mas artistas, psicólogos e educadores. Criada durante a ditadura militar, no período comandado por Emílio Garrastazu Médici, a Clínica foi um espaço de liberdade para a palavra. Nos dez últimos anos, com a abertura política, existiu em outro momento, gerando um esvaziamento, motivo além disso pela retirada da ajuda externa que a Clínica recebia para o pagamento do aluguel da casa e das secretárias que trabalhavam nela. Os atendimentos não eram gratuitos, mas muito acessíveis para aqueles que não conseguiriam pagar os valores comumente cobrados nos consultórios particulares. Cada paciente, ou os pais dos pacientes, pagavam o que diziam suportar. A paixão e o idealismo sustentou e manteve viva a Clínica, diante da oposição feroz, a começar pela presença da palavra ‘psicanálise’, passando pela crítica da análise de grupo e do chamado ‘preço de banana’. É uma experiência de referência para os trabalhos clínicos políticos e críticos inseridos na cultura.

Equipe Clínico Política RJ
Nasceu no âmbito do movimento social Tortura Nunca Mais, tendo posteriormente tornado-se autônoma. Desde o início atua clinicamente junto a afetados pela violência de Estado e luta pela responsabilização do Estado pelas violações que comete (tanto do passado quanto do presente). Foi responsável pelas Clínicas do Testemunho, da Comissão de Anistia, durante o tempo de sua vigência na cidade do Rio de Janeiro (2013-2017).

Margens Clínicas
O coletivo Margens Clínicas é formado por psicanalistas, psicólogas e afins e tem se dedicado a pensar as interfaces do sofrimento psíquico com as patologias do social, elaborando, a partir da escuta clínica, insumos para o enfrentamento da violência de Estado. Formado em 2012, realizou em 2016-2017 os projetos Centro de Estudos em Reparação Psíquica e Clínica do Testemunho nas Margens, uma parceria do Margens Clínicas com a Comissão de Anistia, o Fundo Newton do Conselho Britânico, e o Centro de Estudos da Religião ISER-RJ. Nestes projetos foram realizadas formações com profissionais do SUS e do SUAS sobre a escuta do sofrimento decorrente da violência de Estado, conversas públicas ao redor do tema “O que resta da ditadura?” nas regiões do Heliópolis, Perus e Centro, e propostas comunitárias de reparação das violações do passado e do presente, visando o fortalecimento de laços de cuidado e solidariedade, deslocando a noção de saúde mental desde uma perspectiva individualizada e psicopatologizante para uma perspectiva cultural, em sua interface política, histórica, territorial e social.

Museu das Remoções
Fundado em 18 de maio de 2016 (Dia Internacional dos Museus), o Museu das
Remoções é um museu comunitário a céu aberto, localizado na Vila Autódromo, comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Idealizado pelo museólogo e ativista social Thainã de Medeiros, este museu nasce como parte da resistência contra a política urbana adotada na preparação para as Olimpíadas Rio 2016. Nesse período, a cidade testemunhou a remoção de mais de 77 mil pessoas, entre 2009 e 2015, conforme dados apresentados pela Prefeitura do Rio de Janeiro em julho de 2015, registrados no Dossiê do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas da cidade. Só na Vila Autódromo, mais de 500 famílias foram removidas. O museu é baseado em dois ideais principais: 1) preservar a memória das pessoas removidas, assim como suas histórias, e 2) servir como instrumento de luta de todos que passem pela ameaça de remoção, compreendendo que a memória é o maior deles.

NAPAVE – Núcleo de Apoio Psicossocial a Afetados pela Violência de Estado
Projeto financiado pelo Fundo de Combate à Tortura da ONU, no qual uma equipe multidisciplinar presta apoio psicossocial para afetados pela violência de Estado na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Psicodrama Público
Em 2001, em São Paulo, foram organizados 180 psicodramas públicos simultâneos, com o tema “A cidade que queremos”. Dois anos depois, o movimento psicodramático, na pessoa de Antonio Carlos Cesarino, iniciou o Psicodrama Público no Centro Cultural São Paulo (CCSP), onde segue existindo, há quinze anos. O Psicodrama Público do CCSP acontece todos os sábados, entre 14h-16h30. Gratuito e aberto, acolhe uma frequência média de sessenta pessoas. A direção é rodiziada entre diversos psicodramatistas. O objetivo do trabalho é abordar questões emergentes, individuais e/ou coletivas. Trata-se de um espaço público com o objetivo de acolher diferentes subjetividades, destinado à troca de ideias, valores e experiências de vida a partir da construção coletiva de histórias dramatizadas. Não há tema ou roteiro pré-fixado necessariamente, o trabalho objetiva colocar no palco questões trazidas pelas pessoas presentes.

Rede de Saúde das Favelas
Movimento que surge como uma demanda do Movimento de Favelas do Rio de Janeiro, visando a criação/potencialização de redes de atenção à saúde favelada, em caráter emergencial, reunindo diversos movimentos anti-racistas ou que têm desenvolvido ações de enfrentamento à violência estatal e ao extermínio da população negra, tendo como base a saúde integral, o fortalecimento do SUS e a criação e o fortalecimento de políticas de reparação.

Rolé dos favelados
Tours concebidos e conduzidos por guias turísticos e ativistas das favelas do Rio de Janeiro, que abordam tanto a construção histórica das favelas como críticas a processos de gentrificação da atualidade. Um dos tours, por exemplo, questiona o processo de “revitalização” da zona portuária, como se antes desse processo já não houvesse muita vida ali. Para abordar a operação urbana Porto Maravilha, o tour passa pelo Morro da Providência, primeira favela do Rio; por pontos históricos relevantes na cultura e memória afro-brasileira, como o Instituto Pretos Novos (IPN), o Cais do Valongo, o Jardim Suspenso do Valongo, e a Pedra do Sal; e pela Praça Mauá inteiramente transformada, onde está o MAR – Museu de Arte do Rio.