Em quase todos os testes de atores apresentados em Salve o cinema (1995), Mohsen Makhmalbaf pede que as pessoas chorem “de verdade”, para que veja se sabem interpretar. Ele conta até dez, exigindo que os atores derramem lágrimas neste intervalo de tempo. Uma menina, em um dos primeiros testes, derrama uma lágrima. Mas o diretor-ator quer mais. Ela lhe havia dito que queria participar de seu filme para tentar ir embora do Irã, para poder se casar com o homem que ama. Se o filme fosse para o festival de Cannes, ela imaginou que poderia ir também. E ele pede que ela chore mais. Ela não consegue. Makhmalbaf lhe pergunta repetidas vezes: “É este o tamanho do seu amor”?

Um grupo inteiro de homens é dispensado porque eles não conseguem chorar “de verdade”. Makhmalbaf afirma que “um ator precisa saber rir e chorar”. Um dos homens dispensados  lembra que há um ator profissional ali, amigo do diretor, sugerindo que Makhmalbaf chame Moharram Zeinalzadeh, ator de O ciclista, e o faça rir e chorar quando quiser. Zeinalzadeh vai até o centro da sala de testes e, sem cortes, a câmera o mostra chorar em dez segundos. Na sequência, Makhmalbaf faz perguntas a Zeinalzadeh e este conta que já chorou pelo cinema “mais lágrimas do que pode contar”, que emagreceu 18 quilos para fazer seu personagem em O ciclista e, finalmente, que, desde que Makhmalbaf lhe pedira para buscar o silêncio de seu personagem, ele havia se tornado uma pessoa muito silenciosa.

Durante uma longa seqüência com duas meninas de 16 anos, que ocupa mais da metade do filme, Makhmalbaf retoma o tema de “chorar de verdade”. Logo no início de seus testes, as duas choram, ou quase choram. A menina 1 sente as lágrimas se formarem, mas estas não escorrem. A menina 2 derrama uma lágrima e vai até Mahkmalbaf mostrar sua lágrima. Resumindo o que se passa depois, há momentos em que ele diz a elas que foram bem-sucedidas no teste, que se tornaram atrizes, e momentos em que fracassaram. Em outras palavras, elas ficam sempre no limite entre serem atrizes ou pessoas comuns. Ao pedir que as meninas chorem uma vez mais, Makhmalbaf afirma que até aquele momento tudo fora uma brincadeira. Durante todo o final da seqüência, o close está na menina 2, que chora profundamente, enquanto o ator-diretor afirma que ela não sabe mostrar seus sentimentos. A ponto de ela dizer que não consegue chorar quando ele pede, chorando. É porque ela já não está atuando. Está, finalmente, chorando de verdade. Mas não é só isso. Está, ao mesmo tempo, sendo filmada e participando de um filme.

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Este texto de Graziela Kunsch foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

 

 

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