Tem uns errinhos de digitação na entrevista que o Sávio Vilela fez com o Kiko Dinucci. Ao ler a entrevista, o meu olhar de editora não pôde evitar parar para anotar esses detalhes, pensando em mandar para o Sávio de repente corrigir no site dele depois. São detalhes como o “s” que falta na palavra “Guarulho”, ou a grafia correta do sobrenome do Itamar Assumpção, não “Assunção”. Transcrição e edição de falas orais é um troço difícil de fazer, e se a gente fica muito perfeccionista acaba não publicando nada. Mas o que eu ia dizer é que, no meio desses erros de digitação, achei um erro que não é erro. É um ato falho. E nesse pequeno deslize de transcrição, mais precisamente a troca de uma letra “o” pela letra “u”, o Sávio construiu a frase que poderia resumir a entrevista inteira: “Fui uma puta escola de música para mim”, teria dito o Kiko.

Na verdade o Kiko se referia a um clube da CMTC, perto da estação Armênia, como uma escola de música para ele. Esse local onde pessoas se reuniam para jogar futebol de várzea e fazer roda de samba “foi” uma puta escola para ele. Mas não foi apenas obra do acaso que fez o Sávio trocar o “foi” pelo “fui”, ou talvez o próprio Kiko, ao telefone, ter dito “fui” ao invés de “foi”. A entrevista demonstra, a todo momento, que a escola do Kiko – que na educação formal fez até o ensino médio – foi ele mesmo.

Mas não ele mesmo sozinho. Em alguns momentos sim, como quando ele resolveu pegar um dicionário de kimbundu, uma língua africana, para fazer uma letra de música da banda hardcore Nitrate Kid. Foi a forma que ele encontrou para responder a uma regra dos colegas de banda, que diziam que não podia ter nenhuma letra em português. Ele se recusou a compor/cantar em inglês e recorreu ao kimbundu, falado em Angola, onde também se fala o português; uma língua que conviveu e convive com o português. Depois disso teve outro momento de aprendizado solitário; ouvir os discos e ler os encartes da coleção “Nova História da Música Popular Brasileira”, da Editora Abril. E por causa de um desses discos na sua mão, em um ônibus, um senhor puxou papo com ele. E acabou convidando o Kiko para o clube da CMTC, aquele que foi a puta escola de música para ele, ou talvez a primeira puta escola para ele.

Ali ele conheceu o Douglas Germano. E depois (ou terá sido antes, e onde?) a Juçara Marçal. O Thiago França. O Rodrigo Campos. O Rômulo Fróes. Nem todos esses encontros são narrados na entrevista, mas quem acompanha os shows do Kiko já teve a sorte de ver ele contar sobre cada um deles. Ou ao menos sobre a relação de amizade entre eles, sobre o processo de criação coletiva de determinada música. Será que já existe, por escrito, a história da composição de “Samuel”, do Kiko com o Rodrigo Campos? Eu não sei. Mas a cada show que presencio dessa turma – o mais recente foi um show “do Thiago” que tinha, no entanto, dez pessoas no palco da Casa de Francisca -, eu me sinto feliz por estar viva neste momento da música brasileira. Eles estão fazendo história, com seus projetos coletivos e seus projetos “colo”, como propôs a Juçara ao lançar seu primeiro disco solo, Encarnado, realizado com Kiko e Rodrigo, além de outras colaborações mais pontuais (“disco colo” no lugar de “disco solo”). Daí a importância dessa entrevista feita pelo Sávio, tão gostosa de ler.

A escola de música que o Kiko foi para ele mesmo, passando pelo punk hardcore, o samba e a música africana, é generosamente compartilhada com a gente nessa conversa entre os dois, configurando o depoimento do Kiko em uma aula de música e de como fazer música de maneira independente e coletiva.

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Este texto de Graziela Kunsch foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

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