mpegmovie de Graziela Kunsch é um exercício prático de autocrítica sobre disseminação de imagens, remetendo o espectador ao próprio ato de registro, filmando turistas que fotografam e filmam tudo o que vêem pela frente, e criando pela ausência de som o espaço de um desconforto crítico sobre o gesto voluntário, talvez mesmo vaidoso e fútil, de filmar (ou tudo filmar, ou filmar sem saber exatamente para quê). Com mpegmovie, a mente naturalmente passa por Remedial Reading Comprehension (1975), de George Landow, obra seminal de provocação contra a letargia do consumo passivo de imagens.

Ruy Gardnier


Press release: Com amor

São Paulo, 27 de novembro, 2000

Graziela Kunsch realiza hoje sua primeira exposição individual, sob provocação de sua professora, a artista plástica [- – -]. Intitulada “Graziela Kunsch não existe”, a exposição acontece na sala 114 da Faculdade de Artes Plásticas da Faap, a partir das 21h00.

Há aproximadamente um mês, Graziela buscou a orientação de [- – -] para que a artista plástica não visse seu trabalho final (a exposição em questão) como piada, julgamento comum da sua parte, desde um trabalho que aluna a apresentou no semestre anterior. A estudante estava angustiada com a obrigação de organizar uma exposição de seus trabalhos, uma vez que se encontrava absorta em performances de rua, atuando sempre sem planejamento e sem registro. Sua angústia se transformou em choque quando a artista plástica, a quem ela sempre admirou como revolucionária, disse que aquilo que ela estava fazendo era teatro e que não respondia às exigências de um curso de artes visuais. A aluna constatou que todos os esforços dos movimentos de vanguarda radical deste século, que visavam criar um novo mundo, onde essas estúpidas especializações não mais existissem, não conseguiram transformar o pensamento limitado das academias de belas-artes.

Outro desencanto surgiu quando a artista plástica afirmou que se Graziela fazia suas performances só para quatro pessoas, então suas performances não existiam. A aluna, que até então acreditava na arte integrada à vida, ao cotidiano, às relações humanas, descobriu-se uma anti-artista. Se para sua obra existir era necessário colocar em sua exposição, por exemplo, a amiga Lia Chaia para narrar uma performance passada[1], que tivesse envolvido poucas pessoas (e se fossem quinhentas pessoas na rua, a performance teria existido?), então Graziela precisava plantar seu primeiro carvalho e anunciar sua separação definitiva com a hipocrisia do meio artístico.

A forma encontrada pela estudante para concretizar o embate de idéias foi selecionar trabalhos seus que exigem a participação do espectador para acontecer, obras não acabadas, sem assinatura, obras que provocam o espectador a assumir um posicionamento ativo diante da arte e das instituições. Já não importa quem idealizou tais objetos, o que está em jogo é o que será feito deles. Há na exposição uma série dos já consagrados carimbos com desenhos de formigas, propícios a todo tipo de interferência, bem como a novidade Space Man, capacete feito de cartolina branca e arame que sugere curiosas relações da voz dos espectadores com o espaço em que o objeto é vivenciado (características marcante das performances escultóricas que Graziela vinha realizando).

A maior especificidade da exposição encontra-se nas muitas publicações (livros, revistas) dispostas em série pela sala e na projeção do filme Os Idiotas, de Lars von Trier, em uma das paredes. Todos que conhecem bem a estudante sabem que nesse filme se concentra toda sua filosofia de vida; por exemplo, a atuação do Núcleo Performático Subterrânea (formado por Graziela e seus dois filhos Bruno Sipavicius e Daniel Camilli), caracterizada por ações de mau gosto e sem potência, que visam irritar aristocratas e eruditos acadêmicos (a própria [- – -] implorava, aos berros, que o grupo interrompesse seus gritos ridículos, durante a abertura da 32ª Anual de Artes Plásticas da Faap), muito tem a ver com o filme. As performances ruins e estúpidas do grupo podem ser consideradas um exercício de idiotia e, conseqüentemente, de liberdade. Não importa ao Subterrânea ser visto como arte revolucionária[2], até mesmo porque nada que o grupo realiza é novo na história da arte; o que o trio está buscando é espontaneidade, é essência humana. Quanto às publicações, retiradas da biblioteca particular de Graziela, há uma variedade de assuntos: muitos livros sobre movimentos de vanguarda (destacando-se Assalto à cultura, de Stewart Home), catálogos de alguns dos seus artistas preferidos (William Kentridge, Käthe Kollwitz, Arthur Bispo do Rosário, Cildo Meireles, entre outros), fanzines punks, obras literárias e de poesia (Dostoievski, André Breton), livros de cinema, um guia da cidade de Berlim, livros marxistas, Antonin Artaud, Samuel Beckett, Isadora Duncan, Bertolt Brecht, Kazimir Malévitch, livros de filosofia, livros zen-budistas (Graziela pratica zazen há mais de três anos), catálogos de duas exposições em que a estudante foi premiada (Sony’s Heart Awards e 31ª Anual de Artes Plásticas da Faap), manifestos do seu grupo Fumaça, entre outras tantas. As publicações objetivam dar fundamento teórico à exposição e, mais do que isso, desejam ser folheadas e lidas pelos espectadores-participantes, reforçando o caráter de descontração e tomada de atitude implicado no evento.

Sobre as paredes da sala destaca-se uma carta escrita pela amiga espanhola de Graziela (amiga celebrada na série Grazuras), Yuzan San. Noviça zen-budista e parceira da estudante na atuação em obras inexistentes (na sua última passagem pela cidade de São Paulo, Yuzan juntou-se a Graziela nas performances concebidas para as faixas de pedestres, nas quais as duas as atravessavam das mais excêntricas formas, fazendo a passividade dos motoristas e dos demais transeuntes converter-se em riso e encantamento). Em sua carta Yuzan elucida as obras etéreas de Graziela sob a ótica da arte zen. Além disso, o carinho com o qual escreve deixa transparecer a importância afetiva e pessoal nos trabalhos da estudante.

O fato de os textos sobre as paredes estarem escritos em azul nada significaria, não estivesse na porta da exposição um segurança: trata-se de uma homenagem a Yves Klein, também zen budista e também multi-artista, numa referência direta à célebre exposição “Vazio”, que ocorreu em 1958, na Galeria Iris Clert, em Paris. Magicamente, dois anos depois e exatos quarenta anos atrás, Klein realizaria o ato “Teatro do Vazio”, por ocasião do II Festival de Vanguarda de Paris, que ocorreu em um 27 de novembro. Talvez “Graziela Kunsch não existe” seja isso, um teatro do vazio.

Como é de se esperar, Graziela não estará presente em sua exposição. O que ela estará fazendo só o saberão uma, talvez duas, poucas pessoas, enfim. E se algum dia o que essas poucas pessoas vivenciarem for ou não considerado arte, não importa. Importa que o ato de Graziela exista na efemeridade do instante em que for realizado. Importa que uma exposição de poucas horas se eternize na história da luta por uma nova sensibilidade. E se o presente press release está longo demais para uma exposição tão singela, é porque ele é redigido na certeza de que será um dia publicado; não em jornais ou revistas anuais, mas em livros de história da arte do futuro. A estudante só deseja que sua professora não espere esse dia para compreender o grito de basta que este trabalho representa. Graziela fala junto de diversos estudantes que se viram sufocados diante da figura autoritária de [- – -]. Mas fala com amor. Ela segue acreditando na potencialidade revolucionária de sua professora.

[1] Sugestão dada pela professora à aluna.
[2] Resposta a outra colocação da professora, que alegava que o grupo não era revolucionário.

Este era o release de imprensa da exposição individual Graziela Kunsch não existe, realizada na FAAP em 2000. A proposta de trabalho final da disciplina em questão era cada aluna/cada aluno realizar uma exposição, fazer um convite impresso e escrever um release de imprensa. Este release foi impresso em uma pequena tiragem e circulou entre visitantes da exposição. Ao longo da semana anterior à abertura da exposição foram impressos e distribuídos seis convites diferentes, cada um com uma frase de um artista que eu admirava, entre eles Gustav Metzger, que entre 1977 e 1980 fez uma greve de arte. O meu nome (no título da exposição) estava somente numa parte que se destacava do convite e que devia ser apresentada ao entrar na FAAP, de modo que cada pessoa só guardaria a frase escolhida/o nome do artista que disse a frase e não restaria rastro do meu nome.


Carta de Yuzan San, publicada em letra de vinil adesivo em uma das paredes da exposição

“Querida, querida, queridíssima formiguinha:

Recorda-se daquela carta que nunca lhe escrevi, falando sobre o zazen? Entendi a tempo que não se pode escrever nem falar muito sobre o tema, pois é algo tão objetivo que só é possível vivenciá-lo através da prática, para moldar um pouco a nossa percepção subjetiva. Agora resolvo escrever sobre algo ligado ao zen, também, mas algo que, além disso, tem tudo a ver com você. É a única coisa que tenho para deixar como presente de despedida: certa concepção da arte desde o ponto de vista zen… a mais ampla, aberta e universal: a arte como janela da alma.

A expressão artística é uma necessidade natural do homem. Nos mosteiros japoneses, depois de alguns anos de aprendizado, o mestre incentiva seu discípulo a escolher alguns dos ‘caminhos artísticos’. Toda a energia gerada pela prática do zazen e das outras disciplinas pode converter-se em veneno (alimento para o ego), se deixada apodrecendo dentro de si. É necessária uma saída, por suposto direcionada; uma janela: a arte. É, em realidade, o voto do Bodhisatva: dar-se a todos os seres. Passam-se anos de aprendizado consciente… muitos anos errando. Esses monges, como você pode imaginar, não assinam suas obras (algo comum em outras escolas espirituais), pois é seu trabalho, algo natural como o padeiro fazendo pão… não há nada do que se orgulhar, isso seria ilusão, e eles estão buscando a realidade.

Vejo no filme ‘Os Idiotas’ e no seu grupo performático Subterrânea algo disso que acabo de escrever.

Harold Bloom escreveu que, na história da literatura, os clássicos sobreviveram e sobreviverão sempre porque têm alma. Tratam de temas universais, que nunca sairão de moda, pois falam da essência humana. Creio que essa afirmação pode se estender a todos os âmbitos da arte… Krishnamurti disse que uma pessoa em contato com sua essência pode tocar castanholas, que será arte.

Existe algo mágico no vínculo ARTISTA – OBRA – ESPECTADOR… Algo simples e enorme como a metamorfose da marioposa: esses milagres cotidianos.

Em toda relação mestre-discípulo pode chegar o momento da transmissão (shiho). É uma cerimônia secreta e privada que acontece à meia-noite, na qual o mestre transmite ao discípulo, de maneira não intelectual, a essência da realidade. É um contato direto de coração a coração. A transmissão de Buda a Mahakashya é um mito: Buda levantou uma flor e Mahakashya simplesmente sorriu… havia compreendido.

Creio que a comunicação ARTISTA – OBRA – ESPECTADOR é algo assim também. A obra funciona como abismo que une os dois corações, as duas essências, as duas almas… e tudo se converte em COMPREENSÃO ÚNICA. Não existem barreiras suficientes para evitar esse contato natural do ser humano… uma obra feita desde o coração, desde as vísceras, desde a necessidade inerente do homem destrói proibições, mata demônios, desfaz padrões morais, atravessa séculos e une espaços (…)

A busca do artista é infinita… assim como a dos espectadores. Atraem-se como dois pólos opostos de um imã. Um largo e difícil caminho de auto-conhecimento por seu labirinto interior os espera. Muitas sementes cairão sobre solos inertes. Muitos golpes contra a parede de suas ruas sem saída. Muitos abismos com seus medos. Mas a tendência natural de evolução do homem os guia em busca dessa comunicação, dessa união. O INDIVÍDUO, NESSE CONTATO SAGRADO, DESAPARECE E SE FUNDE NA HUMANIDADE.

É por isso que lhe animo (da palavra ‘anima’, alma) e lhe dou a única coisa que tenho: meu alento, para que continue sua busca interior, que se reflete e se funde com sua expressão exterior, pode estar certa.

Expresse sua busca, Graziela, direcionando-a não até os olhos, ou a um nome, ou a um prêmio, ou a um elogio. Há algo mais amplo e real que essas máscaras do ego, e esse algo mais é a humanidade. Nossa humanidade: a de dentro e a de fora. Microcosmos e macrocosmos. Esse koan, essa dança cósmica do abraço eterno.

É assim que sua escultura de fumaça, seus latidos anônimos na noite, seus saltos loucos e felizes pelas ruas, suas polaroids moribundas e, espero, um etc. que seguirá crescendo com você, infinitamente, têm, no meu entender, mais forma, realidade e universalidade que um quadro limitado entre quatro paredes. Suas obras etéreas existem mais que uma catedral pois são como a respiração do arquiteto: indispensáveis para a verdadeira existência. Sua obra é uma expressão livre, limpa e natural de sua evolução. De sua busca. Do seu desejo ancestral de comunicação. Do seu CAMINHO.

GYA TE, GYA TE
HARA GYA TE
HARA SO GYA TE
BODY SOWAKA
HANNYA SHINGYO

Continue sempre. Te quiero.
Yuzan”

 

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