A contribuição que eu havia pensado originalmente para o projeto/livro “Vocabulário Político para Processos Estéticos”, organizado por Cristina Ribas, era contar, desde a minha experiência, como vi a expressão “Tarifa Zero” no transporte coletivo aparecer, ser debatida (inclusive negada) e se transformar ao longo dos últimos nove anos. Eu queria contar da emoção que eu e pessoas de luta próximas como Lúcio Gregori (criador do projeto Tarifa Zero nos anos 1990) e Daniel Guimarães (criador do website TarifaZero.org em 2009) sentimos hoje toda vez que uma multidão de rua grita “Tarifa Zero”, porque foi um longo processo até essa expressão ter sido assumida por todos os coletivos do Movimento Passe Livre e, pouco a pouco – com muito trabalho de base em escolas e comunidades, além dos materiais impressos e das manifestações de rua -, ser apropriada por tantas pessoas. Não cheguei a redigir esse texto e, no processo de organização desta publicação, acabei escrevendo e publicando um outro texto relacionado ao tema, objetivando contribuir diretamente em um processo político, mais que em processos estéticos. A Cris perguntou se eu não teria vontade de publicar este texto também no Vocabulário e, inicialmente, achei que não fazia muito sentido. Ao voltar ao texto, lembrei que seu objetivo principal era trazer para o debate público a Tarifa Zero, no momento em que a grande imprensa escolheu ofuscá-la, colaborando no processo de criminalização das lutas por mudanças sociais e espaciais. E o que é este Vocabulário, senão tornar visíveis certos termos e contextualizá-los?

Não sei se o texto que segue irá colaborar em processos estéticos – espero que sim -, mas estou muito contente de contribuir na publicação desde os movimentos políticos. (mais…)

Excerto do show Encarnado. Casa de Francisca, São Paulo, 30 de abril de 2014.

Três músicas seguidas: Xote de navegação (Chico Buarque), Odoya (Juçara Marçal) e Ciranda do aborto (Kiko Dinucci)
Juçara Marçal – voz
Kiko Dinucci – guitarra
Rodrigo Campos – cavaquinho
Thomas Rohrer – batedeira/rabeca

câmera: Graziela Kunsch
(celular)

Eu tentei ficar no hall do Cinesesc após a exibição do filme A vizinhança do tigre (Affonso Uchoa, 2013). Mas não deu. Eu precisava sair daquele espaço correndo. Era dia de abertura de mostra e nós, espectadores, éramos servidos a todo momento. Champagne, castanhas e queijo brie com uvas verdes, ou algo parecido com isso. O rap Eu queria mudar, trilha dos créditos finais do filme, ainda estava na minha cabeça.

Eu não conseguia falar e não tinha vontade de falar. No banheiro cruzei pessoas conhecidas e elas perguntaram se eu estava passando mal, pois eu não respondia seus comentários sobre o filme. Acho que eu estava mesmo passando mal. Só lembro de ter ficado assim após ver O prisioneiro da grade de ferro (2003), de Paulo Sacramento, que por acaso viu o filme de ontem a poucos metros de mim. Outros filmes já mexeram comigo e me deixaram sem vontade de conversar, mas em A vizinhança do tigre e O prisioneiro da grade de ferro meu emudecimento foi de outra ordem. Eu me envolvi por seus personagens, torci – e torço – por eles, mas não tenho nenhuma resposta individual a dar que possa tirá-los de suas condições.

Um filme se passa em um bairro periférico de Contagem, Minas Gerais – curiosamente chamado “Nacional” (poderia ser qualquer outra quebrada no Brasil) – e o outro dentro do complexo penitenciário Carandiru, meses antes da sua demolição. Nos dois casos não parece haver saída. Mesmo que os meninos de A vizinhança do tigre estejam soltos e que a sua condição seja muito melhor do que seria em uma cadeia, não parece haver esperança de mudança. (mais…)

Tem uns errinhos de digitação na entrevista que o Sávio Vilela fez com o Kiko Dinucci. Ao ler a entrevista, o meu olhar de editora não pôde evitar parar para anotar esses detalhes, pensando em mandar para o Sávio de repente corrigir no site dele depois. São detalhes como o “s” que falta na palavra “Guarulho”, ou a grafia correta do sobrenome do Itamar Assumpção, não “Assunção”. Transcrição e edição de falas orais é um troço difícil de fazer, e se a gente fica muito perfeccionista acaba não publicando nada. Mas o que eu ia dizer é que, no meio desses erros de digitação, achei um erro que não é erro. É um ato falho. E nesse pequeno deslize de transcrição, mais precisamente a troca de uma letra “o” pela letra “u”, o Sávio construiu a frase que poderia resumir a entrevista inteira: “Fui uma puta escola de música para mim”, teria dito o Kiko.

Na verdade o Kiko se referia a um clube da CMTC, perto da estação Armênia, como uma escola de música para ele. Esse local onde pessoas se reuniam para jogar futebol de várzea e fazer roda de samba “foi” uma puta escola para ele. Mas não foi apenas obra do acaso que fez o Sávio trocar o “foi” pelo “fui”, ou talvez o próprio Kiko, ao telefone, ter dito “fui” ao invés de “foi”. A entrevista demonstra, a todo momento, que a escola do Kiko – que na educação formal fez até o ensino médio – foi ele mesmo. (mais…)

No sábado desci no metrô Sé perto de 15h. Eu sabia que às 15h teria início uma apresentação do Coletivo Cartográfico, que aproxima dança e performance, e que aconteceria na Praça da Sé. O trabalho se chamava “Instruções para o colapso”. Ao chegar na praça comecei a procurar pelas meninas do grupo. A primeira coisa que encontrei foi um homem deitado no chão, sem nada por baixo, no meio da praça. Aquilo já seria parte do espetáculo de dança? Não e sim, talvez. Andei mais um pouco e encontrei uma segunda pessoa caída no chão. Aos poucos, olhando em volta, comecei a perceber diversos corpos – alguns deitados, outros caídos – por toda a praça. Lá na frente, na escadaria da catedral, as três meninas começaram a descer os degraus rolando, corpo inteiro no chão, bem lentamente. A escadaria estava cheia e pessoas foram se aglomerando para tentar entender o que aquelas meninas estavam fazendo. Na pequena multidão que se formou havia pessoas como eu, que tinham ido até a praça às 15h, para ver um trabalho de dança, e outras que ficaram instigadas pela situação, mas que muito rapidamente perceberam que se tratava de alguma encenação. Apenas quem não identificou esse limite entre vida e atuação foram alguns moradores de rua, em especial uma moradora, que de longe parecia embriagada, e ameaçou uma das dançarinas fisicamente. Daquela distância não dava para saber o que ela estava dizendo, mas era ela quem tornava a apresentação mais contundente. (mais…)

Aqui nesta seção do site naocaber.org a minha ideia é acolher críticas de outras pessoas, sejam críticas feitas especialmente para o site, a partir de um convite meu, sejam críticas já publicadas anteriormente em outros espaços que dialoguem com alguma pesquisa em curso. Em breve…
Grazi

Hoje vi “Esse amor que nos consome”, de Allan Ribeiro, com Rubens Barbot e Gatto Larsen, e aos poucos o filme foi me encantando. Eu tinha batido o olho em frases de uma crítica na revista Cinética que citava “a mais bela sequência” do filme, antes de vê-lo, sem saber qual sequência seria essa. Conforme assistia ao filme tomei nota de várias sequências ou cenas lindas… Os dois dançarinos que dividem o guarda-chuva, o improviso de Rubens que coincide com o único momento improvisado da câmera (que ao menos sugere ser uma câmera improvisada), o pano sobre a placa, a primeira vez que se fala em exu lá embaixo, a senhora engraçada que depois soube que é atriz-personagem de outros filmes do diretor, entre outras tantas cenas, até mesmo a que nunca chegou a ser filmada, da placa de vende-se voando com o vento… Impossível não ver o filme sorrindo, e impossível não chorar ao ouvir o diretor contar que, após ver o filme, o proprietário do imóvel decidiu não vendê-lo mais. Sempre bom ser surpreendida com um trabalho coletivo tão bonito.

Eu pensava em estruturar uma fala para apresentar meus trabalhos da melhor forma possível para vocês mas, ao invés de o MAC me encontrar, eu acabei optando por tentar encontrar o MAC.

Em uma conversa preparatória da atividade de hoje, a Luiza Proença, do grupo que está organizando esses encontros junto ao Tadeu Chiarelli, me disse que uma pergunta que ela tem feito a quase todos os artistas que vêm aqui é: “O que você espera do MAC?”

Coincidentemente, antes de ouvir essa pergunta da Luiza, eu vinha pensando em doar todos os meus trabalhos de 1999 até hoje, incluindo algumas correspondências pessoais, a um museu público. Todos os meus trabalhos estão muito mal guardados, em minha casa, muitas coisas já se perderam… e eu só conseguia pensar no MAC. Mesmo sem saber nada sobre o estado atual do MAC, o meu desejo era, de alguma forma, estar perto da história do MAC. O MAC do Parque do Ibirapuera. Dialogar com aqueles artistas que, nos anos 1970, fizeram coisas incríveis junto ao museu.

Eu venho tentando fazer esse diálogo já há algum tempo. Em 2007, em função de uma pesquisa para o curador alemão Heinz Schutz, e seguindo orientações de Mario Ramiro e Maria Olimpia Vassão, (mais…)

com Ana Letícia Fialho. Entrevista originalmente publicada na revista Trópico, seção Em obras.

O crítico de arte e curador dinamarquês Simon Sheikh (1965) esteve em São Paulo durante um mês, numa viagem de pesquisa de um grupo da The Royal Danish Academy of Fine Arts. Nesse período, ele pode visitar várias vezes a 29ª Bienal de São Paulo e examiná-la com muita atenção. Sheikh também desenvolve atualmente uma pesquisa sobre exposições de arte e imaginários políticos na Universidade de Lund, é orientador do projeto “Former West” e curador da exposição “Vectors of the possible” (na BAK, em Utrecht). Além disso, ele é editor da série de livros “OE Critical Readers”, na qual se destaca a obra “In the Place of the Public Sphere?” (2005). A fim de conhecer as reflexões de Sheikh sobre a Bienal, Trópico o entrevistou, estruturando as questões a partir dos tópicos arte e política, criticalidade, contexto e historicização, mediação e da noção de exposições de arte como “espaços de esperança”, tese defendida por ele. Segundo o curador, para que as bienais sejam lugares de esperança, e não somente do capital, elas precisam “estar mais ancoradas em seus contextos e comunidades e menos nas estruturas de poder e interesses econômicos do mundo internacional das artes”. (mais…)

De manhã:
a) Fala inicial sobre a situação atual do assentamento Ireno Alves dos Santos e sobre o projeto do Núcleo Urbano na antiga vila barrageira por um dos coordenadores do movimento;
b) Apresentação do resultado das discussões sobre Produção, Gestão e Vida coletiva, realizadas no primeiro Seminário (sistematizadas no relatório já apresentado), com relato dos assentados que haviam participado daqueles debates;
c) Exibição de slides pela USINA do seu trabalho em São Paulo de produção de habitação junto aos movimentos de moradia e em seguida, slides do seminário realizado na vila barrageira e imagens de como ela era anteriormente. Neste ponto eram convocadas pessoas a avaliar o seminário e a história de transformação da vila;
d) Os participantes dos seminários (de 60 a 150) eram divididos em três rodas de debate, das quais participavam uma liderança local e um assessor técnico da USINA. As perguntas que orientavam o debate eram:
– histórico e nome da comunidade
– o que já avançou?
– o que falta avançar? (surgindo daí propostas)

Trecho de relatório dos seminários das comunidades do Assentamento Ireno Alves dos Santos – MST

Em junho de 2008, no contexto da minha pesquisa de mestrado (Projeto Mutirão, ECA-USP), perguntei ao arquiteto Pedro Arantes, membro da USINA, se ele poderia me apresentar algum projeto desta assessoria que só houvesse existido como projeto. Isto é, que não tivesse sido realizado, ou talvez não em sua totalidade. Pedro me concedeu um depoimento de uma hora e trinta minutos, transcrito a seguir, sobre uma experiência desenvolvida junto ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) entre os anos 1998 e 2002, no interior do Paraná. Para minha surpresa, não se tratava de um projeto de edificações, mas de um projeto de cidade. Esta história inspirou o projeto editorial da revista Urbânia 4. (mais…)

« Página anteriorPróxima página »