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Na arte, o aperfeiçoamento só pode surgir da inadequação.
Abbas Kiarostami

O site naocaber.org está no ar mas também em processo. A proposta do site é reunir práticas artísticas, educativas, curatoriais, editoriais e críticas de Graziela Kunsch. O próprio site existe como um de seus projetos inacabados.

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O processo de criação desta publicação envolveu mulheres de diferentes atuações, idades, raças, gêneros, sexualidades e nacionalidades: Amanda Beraldo, Beatriz Moraes, Eduarda Casal de Rey Chaves, Graziela Kunsch, Júlia Oliveira, Maria Luiza Santana de Meneses, Maria Paula Botero e Veridiana Dirienzo. Após encontros presenciais entre essas mulheres, foi criado um documento de texto comum, onde cada uma escreveu relatos de situações vividas por elas próprias ou por mulheres próximas. Todas leram e acolheram os textos umas das outras e esse processo foi em si terapêutico para as participantes. Em um terceiro momento, Graziela Kunsch ficou responsável por construir uma dramaturgia, criando diálogos a partir dos relatos individuais, e Deborah Salles por desenhar esses diálogos.

O zine foi lançado em fevereiro de 2019, no contexto do Festival De|Generadas: Feminismos em pauta, no Sesc Santana, e depois reimpresso, no segundo semestre daquele ano, para nova edição do festival. Circulou de diferentes maneiras, tendo chegado até a artista relatos de mulheres que se reuniram para fazer leituras coletivas em voz alta e também de mulheres que passaram a se encontrar para se escutar mutuamente em espaços públicos.

Ficha técnica:

Projeto editorial
Clínica Pública de Psicanálise

Redação de depoimentos
Amanda Beraldo, Beatriz Moraes, Eduarda Casal de Rey Chaves, Graziela Kunsch, Júlia Oliveira, Manuela Ferreira, Maria Luiza Santana de Meneses, Maria Paula Botero e Veridiana Dirienzo

Pesquisa serviços públicos de saúde
Fernando Pena

Preparação de texto/dramaturgia
Graziela Kunsch

Desenhos e design gráfico
Deborah Salles, em diálogo com Graziela Kunsch

Tiragem:
2.000 na primeira edição
1.000 na segunda edição

A publicação foi incluída em uma vitrine de publicações feministas na exposição Histórias feministas: artistas depois de 2000, com curadoria de Isabella Rjeille, MASP, 2019

fotos: Daniela Paoliello/MAR


Lugar de escuta. Graziela Kunsch e Daniel Guimarães, 2018


com Daniel Guimarães

exposição Arte democracia utopia – Quem não luta tá morto, com curadoria de Moacir dos Anjos, no MAR – Museu de Arte do Rio

Para que diferentes lugares de fala sejam respeitados, é fundamental que exista escuta. É na escuta que a fala é validada, para a própria pessoa enunciadora. Uma comunidade pode se transformar ao, através de um processo de fala e de escuta, nomear e elaborar elementos até então silenciados sobre sua história, sua forma de existir e se relacionar. Nesse processo, que é ao mesmo tempo coletivo e individual, novos conteúdos sobre a própria comunidade podem emergir – ou ser imaginados.

Esta roda de cadeiras montada no espaço expositivo permaneceu vazia em alguns momentos e, em outros, foi usada por mediadoras e mediadores da Escola do Olhar junto a grupos escolares, da maneira que fez sentido nas práticas de escuta e mediação já em andamento no museu. Após o workshop “Experimentação de uma clínica pública no Rio de Janeiro”, realizado em setembro de 2018, o grupo Escutadores, formado a partir do workshop, passou a realizar sessões grupais no Lugar de escuta todas as terças-feiras, dia de visitação gratuita ao museu, até o final de março de 2019, data de encerramento da exposição. As sessões grupais seguiram acontecendo, para além do museu, em contextos específicos do Rio como Ocupação Chiquinha Gonzaga e Lanchonete Lanchonete.

Após o término da exposição as cadeiras foram doadas para a Escola do Por Vir, localizada na Gamboa/Pequena África. 



diferentes usuárias e usuários do canteiro aberto


crianças do CCA do Carmo


turma da yoga


família de Cida Santana (ex-moradores da Vila Itororó)


parte do grupo da Clínica Pública de Psicanálise

Obs: aqui estão apenas algumas imagens/alguns grupos da série.


Em março de 2018, a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo cogitou fechar as portas do canteiro aberto da Vila Itororó (um centro cultural literalmente em construção, existindo em pleno canteiro de obras, com participação popular). Em nota, a Secretaria disse na época estar “avaliando a melhor forma de utilizar o espaço da Vila Itororó, levando em consideração sua importância histórica para a cidade e o interesse público”. Assim, fotografar os diferentes públicos que usam o canteiro aberto com esta faixa foi uma forma de tornar menos abstrata a noção de público, ou de dizer “então venham conversar com a gente, pois nós somos o público do interesse público”. Em 2006, um decreto de “utilidade pública” foi utilizado para justificar a retirada de 60 famílias que viviam na Vila e já naquela época perguntávamos “Utilidade pública para quem? Por quem?”. Esta ação, somada a outras diversas ações pela permanência do canteiro aberto, mantiveram suas portas abertas e a continuidade do projeto em curso.

Execução da faixa: Laura Viana, Ingrid Laís e Graziela Kunsch, com a colaboração de Eliana Baroni, Luiza Viana, Maria Cordeiro Alves, Mônica Simões e Shirley de Barros

Fotografias: Alexandre R. Pereira

Apoio para realização da faixa e das fotografias, através de doações: Adriana Guivo, Ana Carolina Santos, André Gravatá, Beatriz Tone, Biblioteca viva, Daniel Guimarães, Eduardo Costa, Elizabeth Souza, Gabriel Ferreira Zacharias, Gina Dinucci, Juliana Caffé, Júlia Rebouças, Lucas Silveira, Marcius Galan, Moacir dos Anjos, Silvana Olivieri e uma pessoa que escolheu ficar anônima.

jaqueline e kaua

Jaqueline Santana dando banho em Kauã, 2006

Iara Rocha da Silva, Edna Alves de Jesus, Thais, Lara, Alice de Freitas Moura, Antonio Salles Barbosa Junior, Natalia Aparecida da Silva e Valeska Rocha da Silva assistem aos registros feitos por Graziela na Vila Itororó. CDHU Bela Vista D, 2016.


O site vilaitororo.naocaber.org é um arquivo, realizado por Graziela Kunsch, de excertos da Vila Itororó. “Excertos”, no vocabulário proposto pela artista, são vídeos formados por um único plano cada e também peças de um processo maior, carentes de articulação. Os excertos são incompletos por definição; não primam pela qualidade técnica; e mostram o que está sendo filmado tanto quanto apontam para aquilo que não cabe no quadro da imagem.

Ao lado de outras obras realizadas no contexto do projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, este trabalho adensa criticamente o presente, trazendo novos entendimentos sobre a reforma em curso desse conjunto arquitetônico, em disputa há mais de quarenta anos.

Estão reunidos aqui trechos filmados (quase todos por Graziela) desde 2006 na – ao redor da – Vila Itororó. Graziela colaborou na luta dos hoje ex-moradores em 2006 e trabalhou no projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, de março de 2015 a abril de 2017, como responsável pela formação de público (no sentido de tornar concreta a até então abstrata dimensão pública do conjunto). É importante lembrar esses seus papéis para entender que este trabalho integra uma série de ações que vão do ativismo à ampliação do papel da artista em projetos culturais, passando pela articulação constante entre a reflexão crítica e o fazer cotidiano. Este arquivo é vivo à medida que Graziela pode seguir editando-o depois deste texto publicado – acrescentando ou tirando excertos. Quem for adentrar o arquivo pode escolher ver os excertos em ordem aleatória ou seguir o tempo linear – assistindo um vídeo após o outro e, assim, atravessar os anos –, encontrando pessoas que se tornam personagens de uma história maior, nunca totalmente revelada; mas, seja qual for a forma de assistir, surgem, nesses mais de dez anos, relações entre momentos esparsos e suspensos, assuntos recorrentes, rostos envelhecendo, ameaças reais ou fantasiosas, promessas cumpridas e esquecidas.

“Por que não cabemos dentro deste projeto?”
Excerto: Antônia Cândido, 2006

Antes de seguirmos, vale resgatar o pano de fundo dessa história. Com certo recuo, é bastante simples: trata-se da tentativa para que o restauro e o futuro de um conjunto de casas chamado Vila Itororó seja decidido com quem o habita (ou o habitou) e/ou com quem o for usar (ou já o utiliza). Mas o que acontece na frente deste pano é outra coisa. Vemos nesses excertos forças antagônicas se enfrentarem em lutas desiguais; posições políticas e intelectuais sendo (re)definidas pelas posições que cada um/a ocupa no espectro social (moradores despejados, arquitetos autônomos, arquitetos da Prefeitura, ativistas, políticos); mudanças no contexto; mudanças de posições (e, consequentemente, nas opiniões e posturas); interesses – e desinteresses – de políticas públicas viciadas e incapazes de atender demandas mesmo que claramente formuladas.

A maioria das vozes registradas são aquelas que normalmente ficam silenciadas pela história tal como ela costuma ser contada pelos vencedores. Na contramão disso, os excertos aqui apresentados foram filmados da perspectiva dos vencidos e operam, portanto, como uma singela anatomia do poder. No lugar dos fluxos claros, das causas, consequências e correlações da historiografia oficial, os excertos desenham uma história que costuma não caber, composta de milhares de gestos; uma história intricada, incompleta, incoerente e ruidosa.

Fugindo do formato do diário de militante, Graziela aparece por vezes como personagem, mas está quase sempre atrás da câmera, resgatando esses gestos cotidianos – de reunião em reunião, de panfletagem em assembleia, de casa ao trabalho – para assim “escovar a história a contrapelo” (Walter Benjamin, VII tese, Sobre o conceito da História, 1940): é o mutirão dos moradores em oposição ao maquinário do despejo; a presença constante de Dona Cida; as idas e vindas de políticos e técnicos; o puxadinho que sustenta o palacete; os andaimes acoplados à casa 11; a pintura inacabada de Rodrigo Cunha; os desenhos bem resolvidos de Decio Tozzi; a canela no quentão do Seu Luiz; a frieza burocrática da reunião na Sehab. Por serem parte de uma história considerada menor (gestos cotidianos, reuniões longas, encontros na cozinha, no banho, no quintal), esses excertos desvendam melhor os processos violentos que agem por trás da história da Vila Itororó do que os registros tradicionais (jornais, discursos, atas de reunião, projetos arquitetônicos) de uma história escrita para ser oficial.

A Vila Itororó nasce como monumento falido – “monumento” à medida que o seu idealizador, Francisco de Castro, brasileiro de origem portuguesa, pretendia promover o seu empreendimento imobiliário inaugurando o “palacete” da vila no centenário da independência do Brasil; “falido”, pois nunca integrou a história oficial e se manteve como conjunto heterogêneo, sem forma fixa, sendo remodelado constantemente pelo próprio Francisco de Castro e pelos demais moradores e proprietários subsequentes. Enquanto os monumentos costumam ser documentos oficiais, firmes e fortes, que celebram as guerras e as destruições passadas com o objetivo de reforçar os poderes estabelecidos, a Vila Itororó, construída em parte com materiais de demolição oriundos de uma cidade passando por violentas transformações, é o documento maleável e borrado da precarização das formas de morar que sobraram para os mais pobres no centro da cidade. Ela é o avesso do avesso, popular e eclética acima de tudo, a transição não oficial de uma cidade colonial escravocrata para uma cidade moderna segregada. É no fracasso da Vila como monumento oficial que surge sua relevância – e estranha beleza – como documento histórico não oficial e não resolvido de um mundo desabando.

A Vila Itororó conta uma outra história possível de cidade. Talvez por isso ela continue em disputa. Enquanto uns querem capturar e neutralizar sua história, destacando a sua excepcionalidade como “vila surrealista” folclórica e silenciando assim o que ela tem mesmo a contar da cidade, outros apenas querem seguir habitando-a, lembrando que sua construção aponta para outras formas de morar no centro da cidade. Para os primeiros, em nome da salvaguarda do conjunto, o que não cabe na Vila Itororó é uma vida popular que se autodetermina e constrói suas próprias casas, que não se conforma com prédios padronizados e com padrões de vida desenhados por outros. Para os segundos, mesmo que na ameaça iminente do desabamento da Vila, o que precisa caber ali é uma qualidade de vida mínima e coletiva para os mais pobres.

Por conta dessa disputa ao redor da definição de o que é “público” ou o que José Eduardo Lefevre chama, em um dos excertos, de “interesse maior”, a reforma em curso não pode apenas ser um projeto de restauro “melhor” do que o projeto anterior – pois, sendo “melhor”, seria apenas um aperfeiçoamento do mesmo, congelando a Vila em um passado que nunca existiu (com ainda mais facilidade na ausência dos moradores), mesmo que com levantamentos mais precisos, com um resgate sábio dos ornamentos desaparecidos, com intervenções contemporâneas discretas. O restauro deve ser diferente, construído de baixo para cima, partindo do presente para pensar o passado e conseguindo assim lidar com a precariedade do conjunto e com suas muitas e vivas camadas sem tentar resolvê-las em uma narrativa linear. Este projeto outro passa pelo programa de uso e pelo restauro material.

Na real dúvida sobre a nossa capacidade de realizar isso, em meio às engrenagens da burocracia pública, este trabalho de fôlego de Graziela propõe uma leitura crítica da Vila Itororó como antimonumento, reunindo aqui alguns documentos da barbárie dos vencedores, mas escritos pelos vencidos. Para quem quiser ouvi-las, essas vozes clamam por resgatar o potencial disruptivo da Vila como patrimônio verdadeiramente popular.

“Os vencedores marcham juntos no cortejo de triunfo que conduz os dominantes de hoje por cima dos que hoje jazem por terra. A presa, como sempre de costume, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais”.
Walter Benjamin, VII tese, Sobre o conceito da História, 1940

Benjamin Seroussi, curador
25 de janeiro de 2018

_ O site foi comissionado em 2015 pelo projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, uma parceria da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo com o Instituto Pedra.

Texto de divulgação do lançamento da obra, pelo projeto Vila Itororó Canteiro Aberto:

Lançamento da obra-arquivo Excertos da Vila Itororó, de Graziela Kunsch

No dia 3 de março, sábado, às 15h, a Vila Itororó Canteiro Aberto realiza o lançamento da obra-arquivo Excertos da Vila Itororó, de Graziela Kunsch. “Excertos”, no vocabulário proposto pela artista, são vídeos formados por um único plano cada e também peças de um processo maior, carentes de articulação.

A obra recupera excertos realizados em 2006, que na época circularam no site do Centro de Mídia Independente (CMI) e foram importantes no processo de resistência das moradoras e dos moradores que lutavam pela permanência na Vila Itororó, já que traziam rostos, nomes e histórias de pessoas até então desconsideradas no “interesse público” decretado para a Vila. As fitas de 2006 foram digitalizadas no processo do Canteiro Aberto, e novas situações foram gravadas, entre 2015 e 2017. Uma década depois, é possível identificar uma série de transformações e algumas permanências – na própria Vila Itororó, nas vidas de quem morou ali e nos papéis de quem, de diferentes maneiras, atuou no contexto.

Os excertos são incompletos por definição; não primam pela qualidade técnica; e mostram o que está sendo filmado tanto quanto apontam para aquilo que não cabe no quadro da imagem. O arquivo escreve uma história a contra-pelo, uma história contra-hegemônica, na luta contra o apagamento das histórias das pessoas que viveram na Vila Itororó – incorporando inclusive as próprias sessões de apresentação e discussão dos excertos com as/os moradoras/es e em outras situações públicas.

Durante o lançamento, a obra será projetada e Graziela irá apresentar alguns excertos e traçar uma relação entre o passado, o presente e o futuro da Vila. Haverá um café da tarde coletivo, que terá sido preparado na Cozinha Pública.

Data: 3 de março de 2018, sábado
Horário: 15h


clinica publica de psicanalise imagem


A experiência piloto de uma Clínica Pública de Psicanálise no galpão do projeto Vila Itororó Canteiro Aberto, com atendimentos individuais gratuitos, pretende ampliar, para além das práticas artísticas, a noção de cultura e o que se espera de um centro cultural. A proposição partiu da artista Graziela Kunsch, responsável pela formação de público da Vila Itororó, junto aos psicanalistas Daniel Guimarães e Tales Ab’Sáber(*). Trata-se de mais um experimento no canteiro de obras (que vem se somando a outros experimentos) com o intuito de abrir novas perspectivas para o futuro da Vila.

A clínica surgiu de uma reflexão acerca das transformações radicais – internas e externas – pelas quais a Vila passou ao longo da sua história, tendo sofrido diversas violências: violências do planejamento urbano com a canalização do rio Itororó e a construção da Avenida 23 de Maio; violências das políticas habitacionais com a retirada dos então moradores; violência do mercado imobiliário com a expulsão econômica das populações mais pobres que habitam o bairro. Se o projeto surgiu de um anseio de atender ex-moradoras e ex-moradores da Vila Itororó, a criação de horários de plantão visa ampliar os atendimentos a demais interessados. Quem tiver interesse em ser atendido na clínica só precisa comparecer no canteiro/galpão nas manhãs de sábado. Serão atendidas até quatro pessoas em cada plantão, por ordem de chegada, com a possibilidade de agendamento de retornos.

O grupo da clínica hoje é formado pelos psicanalistas Ana Carolina Santos, Camila Bassi, Camila Kfouri, Dafne Melo, Daniel Guimarães, Daniel Modós, Flávio Bacellar, Fernando Pena, Frederico Tell Ventura e pela artista Graziela Kunsch. A supervisão dos trabalhos é feita por Heidi Tabacof e Mauricio Porto (última atualização de nomes atuais da equipe em março de 2018). Nos primeiros seis meses de existência da clínica, o grupo de atendimentos foi formado por Anne Egídio, Carolina Binatti, Daniel Guimarães, Fabricio Brasiliense, Patricia Gertel Nogueira, Ricardo Cavalcante e Tales Ab’Sáber, este último como supervisor. No segundo ano as supervisoras foram Heidi Tabacof e Maria Silvia Bolguese. As psicanalistas e os psicanalistas trabalham no projeto por um desejo político e como parte de sua formação, recebendo uma ajuda de custo no valor de um bilhete mensal de transporte. Com a ampliação do projeto, pode-se imaginar esse experimento funcionando, num futuro próximo, em uma das casas da Vila Itororó.

Benjamin Seroussi, curador da Vila Itororó Canteiro Aberto

(*)Este último não se encontra mais no projeto, por diferenças metodológicas e políticas que surgiram ao longo dos primeiros meses de existência da clínica.

Desde julho de 2016

Leia mais sobre a clínica:
O direito à cidade psíquica: a Clínica Pública de Psicanálise, ou a psicanálise como canteiro aberto, por Daniel Guimarães

Textos do início do processo:
Psicanálise, espaço público e vida popular, por Tales Ab’Sáber
Uma clínica pública de psicanálise, por Daniel Guimarães

Clique aqui para os horários de plantão

Imagem: vista desde o divã da Clínica Pública. O divã foi construído coletivamente pelo grupo de psicanalistas na marcenaria do canteiro, com auxílio dos técnicos do coletivo GAMB, também responsáveis pelas paredes móveis e dobráveis do espaço, em colaboração com Graziela Kunsch. A pintura à direita é parte da obra em exposição permanente “Padrões da Vila”, de Mônica Nador.


obra realizada para a exposição Junho de 2013: 5 anos depois
Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, Rio de Janeiro, junho de 2018
curadoria geral: Daniele Machado e Gabriela Lúcio
co-curadoria: Camila Vieira, João Paulo Ovídio, Leticia Guerra, Marcela Tavares, Thatiana Napolitano e Thiago Fernandes


Há uma semana da abertura desta exposição, recebi um convite da curadora Daniele Machado, para integrar o projeto com alguma obra feita por mim, já existente. Não haveria remuneração pela minha participação, porque o Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica está operando quase sem recursos e sem patrocínio. Hesitei um pouco sobre como responder a esse convite, até que decidi escrever esta carta.

Ando um pouco incomodada com as celebrações em torno de 2013. Mesmo que se tratem de revisões críticas e não necessariamente comemorativas, parece existir, para alguns grupos de esquerda, a necessidade de marcar os cinco anos daquele momento histórico, quando o nosso presente mereceria, na minha opinião, uma maior atenção.

Também me incomodam uma série de equívocos nas narrativas sobre 2013, feitas por pessoas que não viveram essa experiência diretamente, ou ao menos não a viveram desde seu início. Devo deixar claro que sou paulistana e que escrevo desde a experiência de junho na cidade de São Paulo, que foi muito diferente dos acontecimentos em outras cidades, porque em São Paulo havia um movimento organizado planejando os protestos. O Movimento Passe Livre (MPL) planejou, por exemplo, a cena que viraria capa do jornal Folha de S. Paulo em 7 de junho, em fotografia de Nelson Antoine: a avenida 23 de maio bloqueada por catracas pegando fogo e muitos corpos, carros parados, prefeitura à direita (indiretamente sobre as chamas das catracas) e, ao fundo, o bandeirão SE A TARIFA NÃO BAIXAR SÃO PAULO VAI PARAR. Quem achou que tudo foi um acontecimento espontâneo é porque desconhece o trabalho que dá imaginar e realizar essas coisas. Não houve ensaio ou direção e a maioria de nós éramos desavisados, protestando contra o aumento da tarifa e, aos poucos, outros grupos foram se auto-organizando/realizando ações por conta própria. Mas havia, na base de tudo, muita organização. A única coisa que não partiu apenas do trabalho educativo do movimento, durante seus então oito anos de existência, em escolas e comunidades, mas que é mérito do próprio aumento na tarifa, foi a quantidade enorme de pessoas presentes já no primeiro grande ato central. Desde a fundação do movimento, dizíamos que, a cada aumento, aumentava também a exclusão social. E o que testemunhamos, ano após ano, foi um aumento progressivo das manifestações de rua. Por isso também é errada a narrativa de que a coisa só ficou grande após a quinta-feira 13 de junho. Quem afirma isso muito provavelmente não estava nas ruas nos atos anteriores. A partir daquela noite, caracterizada por muita repressão policial, as manifestações tiveram apoio da imprensa hegemônica e se multiplicaram por todo o Brasil e, em São Paulo, ficaram maiores e mais espalhadas, até mesmo seguindo diferentes trajetos/ruas/direções simultaneamente. Mas isso não significa que fossem pequenas até então. Finalmente, considero equivocado afirmar que, em São Paulo, as pautas eram difusas. Não eram. Mesmo no ato do dia 17, que incluiu muitas pessoas afirmando que não estavam ali apenas por 20 centavos, a ênfase ainda era a revogação do aumento da tarifa, ou os 20 centavos. Somente no dia 20 de junho, que seria o ato de comemoração da nossa vitória, anunciada no dia 19, o MPL perdeu o controle. Ainda lembro da alegria de ver um monte de gente gritando por tarifa zero nesse ato, mas também da tristeza – do horror – de presenciar companheiras e companheiros do MST serem escorraçadas/os por pessoas truculentas de direita e qualquer pessoa vestindo vermelho ser agredida verbalmente por uns playboys de alguma faculdade da região da Paulista. O apartidarismo – não antipartidarismo –, que caracteriza o movimento, foi convertido por oportunistas em antipetismo.

A gravidade do nosso momento atual começou a ganhar forma em 2013, mas isso é culpa unicamente da pior elite brasileira, junto da empresa que monopoliza todos os meios de comunicação. Discordo radicalmente da narrativa de alguns setores petistas sobre 2013, que culpam o MPL pelo início do processo de golpe que ainda estamos vivendo; e discordo da narrativa de alguns setores de movimentos autônomos e de outros grupos de esquerda, que colocam a culpa do golpe nas políticas antipopulares do governo Dilma. Havia sim medidas antipopulares: a ocupação militar de favelas do Rio de Janeiro, a ocupação militar do Haiti, a criação da “lei anti-terror”, os investimentos/desvios absurdos na Copa/nos ginásios padrão FIFA, toda repressão durante a Copa, o benefício a empreiteiras no programa Minha Casa Minha Vida, a expulsão de populações indígenas e ribeirinhas para construção da hidrelétrica de Belo Monte, entre outras. Mas não foi por isso que Dilma ou o PT foram atacados, por quem vestia verde-e-amarelo. Também não foi por corrupção, ainda que essa tenha sido a principal justificativa pública. O que incomodou quem comandou os processos que levaram ao golpe foram as políticas de bem-estar social do partido. E os acontecimentos de junho, ao colocar no horizonte a tarifa zero no transporte público, apontaram em uma direção antimercantil. Ao reivindicar mais investimento social, a pressão desde a esquerda apontou na direção de conter o mercado. Aí está a única possibilidade de leitura crítica do papel do MPL: o fato de termos ativado, no sentido oposto, energias destinadas a desfazer – via congelamento do gasto público, terceirização e reforma trabalhista – os avanços obtidos na década lulista.

Até pouco tempo, sempre fiz questão de pontuar as conquistas à esquerda de junho de 2013, como resposta a quem afirma que “2013 não deu em nada” ou a quem coloca em 2013 toda a culpa sobre a ascensão fascista. Tarifas de transporte foram reduzidas em aproximadamente 200 cidades brasileiras, o que faz uma diferença brutal na vida cotidiana da população. Em Maricá, cidade com mais de 100 mil habitantes, o sistema de transporte público passou a ser tarifa zero. Aqui em São Paulo, o então prefeito Fernando Haddad se viu obrigado a dar uma série de respostas às ruas, tendo a principal delas sido o passe “livre” estudantil (“livre” entre aspas, por ainda ser restrito ao trajeto casa-escola e ter número de viagens limitado).

Também sempre fiz questão de pontuar os desdobramentos à esquerda de junho de 2013, sendo o mais emocionante – novamente falando desde São Paulo e desde a minha própria vivência – a ocupação de escolas por estudantes secundaristas, no final de 2015. Essas ocupações foram comemoradas inclusive pelos mesmos indivíduos petistas que atacam o MPL, que desconhecem (ou ignoram) a participação de diversas/os militantes do movimento nesse processo.

Hoje, sou mais cuidadosa ao falar sobre 2013. A história está sempre em movimento e o nosso contexto atual é extremamente preocupante. Foi por isso que, antes de começar a redação desta carta, pedi para a Daniele que, na lista de artistas/ativistas/etc. da exposição, junto de meu nome viesse uma inscrição:

participação não celebrativa de 2013

 

Não tenho, hoje, nada a comemorar. Aqui em São Paulo irá acontecer outra exposição em torno de junho, chamada “Junho sendo”. Organizada por pessoas do MPL ou próximas ao movimento. Até colaborei um pouco no projeto, enviando um arquivo de panfletos e outros materiais da minha época de militância e o vídeo que me pediram, um excerto de A.N.T.I. cinema da manifestação de um ano da revogação do aumento da tarifa em 2013, ocorrida em 19/6/2014. Mas ainda que junho tenha tido momentos maravilhosos e desdobramentos igualmente intensos, esse junho não é mais. O golpe sim, “está sendo”.

Testemunhar a destruição do Partido dos Trabalhadores é testemunhar também a destruição de uma série de políticas públicas, conquistadas com lutas de décadas. Engana-se quem pensa que o golpe foi apenas contra uma presidenta ou contra um partido. O golpe é contra toda a população, principalmente contra a população mais pobre. Era preciso frear o processo de maior qualificação de trabalhadoras/es, do contrário seria cada vez mais difícil explorá-las/os.

Sou professora em uma das universidades federais criadas no governo Lula, em um bairro periférico da cidade de Guarulhos, com diversas/os estudantes negras/os nas salas de aula. Os cortes promovidos pelo governo Temer, que até aqui reverberam principalmente nas bolsas de permanência estudantil (as que garantem moradia, alimentação e transporte de quem sem esse tipo de auxílio não poderia estudar), já estão provocando evasão escolar. As favelas do Rio, que já haviam sofrido intervenções em governos petistas, durante o golpe vivem esse processo de maneira acentuada, como afirmava Marielle Franco, antes de ser assassinada (ver por exemplo seu texto “A emergência da vida para superar o anestesiamento social frente à retirada de direitos: o momento pós-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada”).

Quem estiver participando desta exposição ou lendo esta carta até aqui, poderá elencar outras tantas retiradas de direitos em andamento ou já consolidadas. E refletir sobre a falta de reação contrária a essa retirada de direitos pelas classes populares, por anos submetidas à despolitização, pelo próprio PT, que deixou de realizar as ações que caracterizaram o surgimento do partido.

Mas, reforço, caso não tenha ficado claro até aqui, que a minha posição não é antipetista. Devemos reconhecer as boas políticas do lulismo – bolsa-família, PEC das domésticas, novas universidades federais, cotas nas universidades, pontos de cultura, editais de cultura, ensino da história e cultura afrodescendente e indígena, comissões da verdade e políticas de reparação da violência do Estado, reforma psiquiátrica, reforma agrária (ainda que insuficiente), entre outras –, e saber diferenciar certos governos de outros. Não é tudo a mesma coisa.

Sobre como proceder daqui em diante, para além de junho de 2013 e para além dos cincos anos depois de junho de 2013, somente cada uma/cada um pode saber.

Da minha parte, além de atuar como educadora e de vez ou outra escrever textos como este, estou engajada desde 2016 na Clínica Pública de Psicanálise, onde damos escuta a pessoas que estão precisando falar, por motivos diversos, entre eles racismo estrutural, machismo, misoginia e as diversas violências cometidas pelo Estado e pelo mercado. Uma proposição artística, ainda que vá levar muito tempo para que seja reconhecida como tal.

Acho que era isso que eu tinha a dizer, ou ao menos o que consegui produzir, em poucas horas (a própria duração da abertura da exposição). Queria ter dedicado algumas linhas à defesa de Rafael Braga, preso desde 2013, mas espero que outros trabalhos da exposição façam isso com a dignidade que ele merece. Também desejo solidariedade a Lula. Apesar de ele achar que junho ou o MPL foram arquitetados pela CIA, ainda é o meu candidato à presidência. 

Que rememorar a intensidade daqueles dias nos firme no tempo presente, na vida cotidiana, porque é só no agora – nem no passado nem no futuro – que podemos agir.

Peço que esta carta seja impressa em papel simples e colada na parede com durex. 

Graziela Kunsch

 

São Paulo, junho de 2018

 



Obra em exposição no 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil (Sesc Pompeia, São Paulo, 3 de outubro de 2017 a 14 de janeiro de 2018)
Prêmio de Residência no CCA Ujazdowski (Polônia)

Excerto de A.N.T.I. cinema
2015, 1’40”
O vídeo, formado por um único plano, registra um ensaio do grupo de percussão Ilú Obá de Min no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, com a câmera voltada para homens e mulheres que habitam a área.  


Comecei a trabalhar com esse formato de “excertos” – vídeos formados por um único plano cada – no ano 2000, época em que eu e Mathias Fingermann, então meu aluno de teatro, fundamos o A.N.T.I. cinema (leia-se “anticinema”), cuja sigla acordamos em não revelar. Nós nos limitávamos a dizer que o A.N.T.I. cinema estava interessado na vida, nada mais. Como Dziga Vertov em 1923, queríamos arrancar do cotidiano trechos de energia autêntica. Como Cesare Zavattini, falávamos em deixar as coisas como elas são, quase que por si mesmas, criarem o seu próprio significado especial. Filmávamos ininterruptamente (sem cortes) por muito ou pouco tempo, elegendo posteriormente um único plano como o filme inteiro, podendo este plano coincidir com a duração da fita de vídeo (uma hora) ou durar poucos segundos. Nós utilizávamos o vídeo digital, mas, mesmo que estivéssemos trabalhando com VHS ou com película, a nossa técnica seria a mesma: o “excerto de A.N.T.I. cinema”. Assinávamos nossos trabalhos como fotógrafos, nunca como diretores.

Desde então, há 17 anos, colho trechos da vida cotidiana por aí. Os momentos menos produtivos se deram na passagem da minha câmera Sony Digital-8 (câmera que já era uma extensão de meu braço, de meu corpo) para o modelo maior Sony VX 2100 e depois, muito pior, na passagem desta para uma Canon 5D. Eu seguia trabalhando no formato de excertos, mas principalmente voltando a fitas brutas de registros feitos entre 2000-2007, para escolher excertos que integram o arquivo da minha obra Projeto Mutirão. Nunca deixei de gravar novos excertos, mas não com a mesma alegria de antes e muito raramente. Nos últimos anos, redescobri a minha prática com um celular I-Phone 4S, que foi o equipamento usado nesse registro Ensaio Ilú Obá de Min.

O que fiz nesse registro foi tão somente gravar pessoas que habitavam o baixo do Viaduto do Chá, no Vale do Anhangabaú, durante um ensaio do bloco de mulheres Ilú Obá de Min. Era o último ensaio do grupo antes do carnaval de 2015, em que elas homenagearam a escritora Carolina Maria de Jesus. No lugar de registrar as mulheres do Ilú tocando seus tambores e cantando, virei a câmera para essas pessoas que ali moravam e interagiam com o ensaio, como público. Os tambores parecem ter revirado toda uma ancestralidade daqueles corpos – o candomblé, o feminino, as entidades/rainhas. Prefiro não descrever e não comentar muito porque quero que as pessoas vejam o vídeo e tenham (ou não tenham) seus próprios encantamentos. Gravar em plano único é uma forma de possibilitar que o espectador/a espectadora vivencie a duração da ação filmada, um pouco como se tivesse estado lá também. Mas uma coisa que posso dizer é que no momento político atual, quando se fecham radicalmente as políticas de bem estar social no Brasil, e o atual prefeito de São Paulo anuncia uma privatização cada vez mais intensa do espaço público e práticas de internação compulsória de usuários de crack, fica ainda mais evidente e relevante a prática de resistência do Ilú, essas mulheres negras que insistem em realizar seus ensaios na rua, nos baixos de um viaduto, engajando a população mais excluída da cidade. Como disse a minha amiga Juçara Marçal, cantora e integrante do grupo, este registro mostra, ao mesmo tempo, uma realidade dura e uma cura possível.

Graziela Kunsch
setembro de 2017 – depoimento dado à equipe do Videobrasil para a Plataforma VB

Observação: Não uso a expressão “plano-sequência” para nomear os planos únicos, mesmo quando longos, porque ao criar esta expressão André Bazin estava se referindo a planos de filmes que cumpriam a função dramática da seqüência de planos no esquema de decupagem clássica. Uma análise do meu trabalho exige outro vocabulário; de modo a explicitar que o que faço é tão somente extrair um trecho de um material bruto. “Excerto”, no Moderno Dicionário Michaelis, significa: (adj) tirado, extraído. (sm) trecho.

* * *

Matérias publicadas por ocasião do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil:

Veja 12 trabalhos imperdíveis no Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. Exposição ocupa o Sesc Pompeia até janeiro e traz um panorama da produção do chamado sul global
Por Paula Carvalho
Bravo!, 4/10/2017
Trecho: “Graziela Kunsch traz duas obras importantes no Festival: o Ensaio Ilú Obá de Min se passa sob o som do bloco afro de mulheres de São Paulo, mas não as enfoca. Os protagonistas do vídeo são homens e mulheres trans que vivem sob um viaduto e, durante a passagem do bloco, ganham a atenção da câmera por sua dança. (…) Graziela filmou escolas ocupadas em São Paulo em novembro e dezembro de 2015 e mesclou suas imagens com fotografias anônimas da internet. A disposição das carteiras, limpeza e organização dos pátios mostram a ressignificação das escolas para os alunos secundaristas a partir da tomada dos prédios e da luta contra mudanças impostas pelo governo do Estado sobre a educação pública”.

A arte como laboratório da liberdade no 20º festival Sesc_Videobrasil. Mostra em São Paulo reúne obras que propõem novos olhares e saberes sobre questões urgentes
Por GG Albuquerque
Jornal do Comércio, 10/10/2017
Trecho: “Em sintonia com esta ‘virada’ do olhar, o trabalho de Graziela Kunsch é outra referência brilhante. Em vez de mostrar diretamente o ensaio do grupo Ilú Obá de Min, o vídeo mostra como moradores de rua recebem o som dos tambores, dançando e fazendo pose para a câmera”.

Depoimento de Juçara Marçal no Facebook
“O Ilú Obá de Min é um grupo de percussão de mulheres. O Ilu Obá de Min celebra e leva para as ruas a beleza da herança africana, exaltando e representando os Orixás, homenageando mulheres negras guerreiras de nossa arte e cultura. Só por isso, esse grupo já seria motivo de muito orgulho. Mas além disso tudo, e mais um tanto de coisas, o Ilú Obá faz suas oficinas nas ruas do centrão de São Paulo. Nossos ensaios, por isso mesmo, dividem espaço com moradores de rua, meninos, mulheres, homens, com a triste realidade de estar ali, sem casa e sem alento. Ver nosso canto, nosso batuque, nossa dança, abraçar de alguma forma essas pessoas e tornar a vida delas um pouquinho mais alegre é das coisas mais emocionantes. E a Graziela Kunsch fez esse registro. Maravilhoso. Cinema da mais alta qualidade, ali captado em meio ao nosso ensaio! Mostrando uma realidade dura e uma cura possível”.

 




Fotos: Alexandre R. Pereira


Faixa de tecido e pintura
Execução: Frederico Luca e Laura Viana
Obra doada para integrante da campanha pela liberdade de Rafael Braga e da luta por cotas na USP

Para Graziela Kunsch, a prática artística pode promover novos campos de debate ou provocar cruzamentos entre esferas públicas e agentes sociais. Sem título (O racismo é estrutural) é a resposta da artista ao convite para participar de OSSO exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga. A faixa foi feita com a mesma técnica das que marcaram os protestos de 2013 em São Paulo, produzidas pelo Movimento Passe Livre (MPL). À época, confrontados com acusações midiáticas e governamentais de que eram violentos, os ativistas pintaram uma faixa com os dizeres VIOLÊNCIA É A TARIFA. No contexto atual, a artista propôs uma frase análoga, que responde às tentativas de minimizar a violência racial como algo restrito a casos isolados e acidentais.
Paulo Miyada, curador

Junho de 2013 é insurreição. A prisão de Rafael Braga é a regra. A regra que atravessou a ditadura civil-militar. A regra que se manteve na redemocratização do país sem provocar suficiente incômodo naqueles que tinham poder para mudar essa realidade, nem suficiente incômodo para perturbar o sonho dos cidadãos brasileiros não sujeitos à ela. (…) O Brasil não vai mudar de forma estrutural porque a Lava Jato responsabiliza e prende empresários e políticos corruptos, por mais importante que isso seja – e é. O Brasil vai mudar de forma estrutural quando Rafael Braga não for preso. O Brasil vai mudar quando brasileiros como Rafael Braga tiverem amplo direito de defesa.
Eliane Brum, em “O Brasil desassombrado pelas palavras-fantasmas: como o sonho e a arte podem nos ajudar a acessar a realidade e a romper a paralisia”





Projeto original em colaboração com o arquiteto Rafi Segal. Desenhos: Rafi Segal


Vídeo projetado grande


Participei da exposição Avenida Paulista (MASP, 2017), com duas obras, que têm em comum o túnel que conecta a Paulista com a Dr. Arnaldo. Na minha primeira conversa com a curadoria, tentei debater a cobrança de ingresso aos domingos (eu queria de algum modo propor um trabalho que deslocasse os recursos da produção da obra para a gratuidade aos domingos; ou explicitar o caminho gratuito existente no museu, conhecido somente por quem vai até o restaurante), mas o tema não gerou interesse. Acabei trazendo projetos já em andamento para o contexto. Abaixo deixo a entrevista que a Luiza Proença fez comigo, publicada em uma brochura-catálogo do museu. Na contracapa dessa brochura há um paralelo entre o meu vídeo e uma intervenção do 3NÓS3 no mesmo túnel, em 1980. O que não coube eu dizer nesta entrevista é que o vídeo que exponho ali é do ato que comemorou um ano da revogação do aumento nas tarifas do transporte, em junho de 2013. Se a Paulista nos últimos anos passou a ser ocupada por manifestações de direita, não podemos esquecer as pequenas conquistas que tivemos, à esquerda. Precisamos reconhecer essas conquistas para conseguir seguir adiante.

Entrevista
Luiza Proença: Os seus trabalhos na exposição têm como referência o túnel que conecta as avenidas Paulista e Dr. Arnaldo. Que características desse túnel chamam sua atenção?
Graziela Kunsch: A Paulista tem áreas subterrâneas bastante desconhecidas, mas o Túnel José Roberto Fanganiello Melhem, apesar de conhecido e visível, é apagado. Não tem a mesma vida da avenida. É um túnel com calçadas largas e aberturas no teto que, no entanto, foi reduzido a uma passagem de automóveis. Poderia ser mais povoado.

LP: Um dos projetos consiste em realizar cortes nas rampas “antimendigos” instaladas no túnel e depende de autorização da prefeitura. O que pode significar a recusa ou a aceitação dessa proposta?
GK: Decisões urbanas da prefeitura podem determinar como se dão as relações sociais no espaço da cidade. Se a prefeitura constrói uma rampa de concreto onde vivem pessoas, ela está forçando o deslocamento dessas pessoas para longe dali. Se a prefeitura concorda em realizar os cortes, criando assim superfícies horizontais nas rampas inclinadas, ela estará respeitando a existência de pessoas em situação de rua que, por motivos diversos, não conseguem viver em abrigos, e tornará possível que essas pessoas utilizem os nichos para se sentar ou se deitar (e, consequentemente, conversar, comer, dormir etc.). Estou chamando esse procedimento de “escultura pública”, porque trabalhar com o espaço urbano não é necessariamente uma questão de o que colocamos (ou adicionamos) na cidade, mas como o espaço pode ser criado ou recriado. O que pode ser retirado para revelar uma forma? Como produzir um “contraespaço”, que abale ou subverta o propósito do espaço existente? A peça de concreto a ser extraída da rampa será deslocada para o museu, onde funcionará como um assento, instalado no chão, para que as pessoas assistam ao vídeo que vou projetar. Se a proposta for recusada, só espero que a justificativa seja pública. Antes de ouvir essa justificativa, não tenho como interpretá-la.

LP: Em relação ao vídeo, qual é seu envolvimento com o Movimento Passe Livre e como esse e outros movimentos se apropriaram da avenida Paulista nos últimos anos?
GK: Fui militante do MPL por muitos anos, desde sua fundação, em janeiro de 2005. Hoje, não faço parte do coletivo, mas sigo lutando, por meio de textos e de minhas práticas como artista e educadora, pela tarifa zero. O MPL sempre preferiu realizar manifestações no Centro histórico da cidade, em função da maior concentração de trabalhadores, que precisam do transporte público para se locomover. E o movimento não é bem-vindo na Paulista. Antes de 2013, já era difícil terminar as manifestações na avenida, porque a Polícia Militar reprimia com violência os atos na subida da Consolação. Cada ato na Paulista foi uma pequena conquista. A avenida marginaliza certos usos, como ocorre em relação à população de rua que tenta habitar o túnel. Os movimentos de direita que passaram a ocupar a Paulista em 2013 não recebem o mesmo tratamento do governo. Para eles, até as catracas do metrô são liberadas em dias de manifestação. Nas manifestações que antecederam o golpe de 2016, foi significativo terem se reunido diante do prédio da Fiesp e não no Vão do MASP da Lina.

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